A banda Ave Sangria vai ser indenizada pelo estado. Grupo de sonoridade psicodélica oriundo do estado do Pernambuco, na década de 70, teve um álbum cancelado e a trajetória interrompida pela Censura durante o Regime Militar. A anistia foi aprovada pela Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania na última quinta-feira, 26. A informação é da Agência Brasil.
O grupo, que buscava construir uma alternativa crítica ao que a sociedade vivia à época e influenciou nomes da música atual como a cantora Marina Sena, lançou em 1974 a canção "Seu Waldir", que tratava de uma relação homoafetiva. A canção fez sucesso, mas a conotação fez os álbuns da banda serem recolhidos nas lojas.
A polêmica fez o segundo álbum do Ave Sangria ser cancelado pela gravadora.
A banda se desfez, alguns músicos foram integrar a equipe de Alceu Valença, e voltou apenas em 2019, ano em que, 45 anos depois, o segundo álbum foi finalmente lançado. No processo indenizatório, foram reunidas diversas provas de todo o prejuízo que a banda teve ao longo dos anos. Assim, fica a determinação de que o Estado pague pensão vitalícia de R$ 2 mil por mês, mais o retroativo desde a data do protocolo.
Para o conselheiro Manoel Moraes, as cifras não reparam o dano que o grupo teve, mas são uma retratação. "A interrupção da carreira deles é um dano irreparável. Então, na verdade, o que aconteceu aqui foi o reconhecimento público e o pedido de desculpas pelos atos de exceção praticados contra esses integrantes e contra a cultura popular", reitera.
Músico da formação original do Ave, Marco Polo reconhece que o episódio já era algo superado, mas admite o alívio com a decisão. "No fundo, talvez ainda sentisse um pouco do trauma que foi a proibição do nosso disco e que levou à destruição da banda. É claro que não temos mais a juventude de volta, nem o dinheiro que ganharíamos se tivéssemos continuado com a carreira, mas mesmo assim é uma boa notícia saber que haverá uma remuneração econômica", reconhece.
Outro membro original, Almir de Oliveira, manifestou-se, comemorando o retorno e o legado deixado pela decisão, não só sob o ponto de vista financeiro. "E retornamos aos palcos depois de tanta emoção, aliviados de tudo isso que aconteceu. A reparação financeira é importante. Porém, esse reconhecimento dos danos causados e a justiça que foi feita é o nosso maior legado neste momento. Deixo aqui um abraço para todos e todas vocês, e a certeza de que a democracia deve ser preservada agora e para sempre, para que novos episódios como esse não venham causar tantos danos ao povo brasileiro."
Antes da indenização do Estado, a Ave Sangria foi considerada Patrimônio Cultural Imaterial do Recife.